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30 de novembro de 2024apegorelacionamentossaúde mental

Estilos de apego no adulto: por que você age assim nos relacionamentos

Teoria do apego de Bowlby e Ainsworth explica padrões relacionais formados na infância — e que persistem na vida adulta. Hazan e Shaver (1987) traduziram a teoria para relacionamentos românticos. Apego seguro, ansioso, evitativo, e desorganizado. Como padrões se repetem, por que é possível mudar, e o papel do 'earned security' — segurança conquistada.

"Me apego demais e afasto as pessoas." "Preciso de espaço mas depois me sinto abandonada quando a pessoa se distancia." "Não me importo muito com relacionamentos — me dou bem sozinha." "Em todo relacionamento, espero que a pessoa vá embora."

Padrões que se repetem em relacionamentos diferentes, com pessoas diferentes. Como se existisse um roteiro que a pessoa segue sem escolher.

Teoria do apego explica o mecanismo. E a boa notícia: roteiro pode ser reescrito.


A origem: Bowlby e Ainsworth

John Bowlby, psiquiatra britânico, desenvolveu a teoria do apego a partir dos anos 1950 — propondo que humanos têm sistema motivacional biologicamente fundamentado para manter proximidade com figuras de cuidado (cuidadores primários) em situações de ameaça.

O apego não é apenas dependência. É sistema de proteção: criança que mantém o cuidador próximo tem maior chance de sobrevivência. O apego é adaptativo.

Mary Ainsworth, psicóloga canadense-americana, desenvolveu o procedimento "Situação Estranha" nos anos 1970 — observando como bebês reagem à separação e reunião com cuidador. Identificou três padrões originais:

Apego seguro: criança usa cuidador como base segura, explora com confiança, fica angustiada na separação mas se reconforta facilmente na reunião. Associado a cuidador responsivo e consistente.

Apego ansioso-ambivalente (preocupado): criança fica muito angustiada na separação, difícil de reconfortar na reunião — alternando entre busca de contato e resistência. Associado a cuidador inconsistente (às vezes responsivo, às vezes não).

Apego evitativo (dispensativo): criança parece pouco angustiada na separação, ignora ou evita cuidador na reunião. Associado a cuidador consistentemente não responsivo ou que rejeita expressões de necessidade.

Mary Main, aluna de Ainsworth, adicionou o quarto estilo:

Apego desorganizado: criança sem estratégia consistente — comportamentos contraditórios, confusão, medo do cuidador. Associado a trauma ou cuidador assustador ou aterrorizado.


Apego no adulto: Hazan e Shaver

Cindy Hazan e Phillip Shaver (1987) publicaram artigo seminal propondo que relacionamentos românticos adultos são relacionamentos de apego — com os mesmos padrões observados na infância.

Adultos com diferentes estilos de apego experienciam e se comportam em relacionamentos de formas distintas:

Apego seguro: confortável com intimidade e com autonomia. Capaz de depender de parceiro sem ansiedade de ser abandonado. Capaz de estar sozinho sem angústia. Comunica necessidades e conflitos de forma direta. Aproximadamente 50-55% da população.

Apego ansioso (preocupado): desejo intenso de proximidade, medo de abandono, hipervigilância a sinais de desinteresse do parceiro. Tende a interpretar ambiguidade como rejeição. Comportamentos de protesto (excessiva verificação, apelação emocional, ameaças) quando parceiro parece se distanciar. Aproximadamente 15-20%.

Apego evitativo (dispensativo): desconforto com intimidade, valorização excessiva de autonomia, tendência a minimizar importância de relacionamentos. Em estresse, se retira em vez de buscar apoio. Dificuldade de identificar e expressar necessidades emocionais. Aproximadamente 25-30%.

Apego desorganizado (receoso): desejo de intimidade coexistindo com medo dela. Relacionamentos são associados tanto a possibilidade de conexão quanto a possibilidade de trauma. Padrão de aproximar-afastar-aproximar que é perturbador para a própria pessoa e para parceiros.


Como padrões se repetem

Bowlby propôs o conceito de "modelos internos de trabalho" (working models): representações mentais de si mesmo nos relacionamentos, do outro, e de como relacionamentos funcionam — formadas a partir de experiências precoces e usadas para navegar relacionamentos subsequentes.

Criança que aprendeu "quando peço ajuda, não recebo" desenvolve modelo de que necessidades não serão atendidas — e pode parar de pedir, ou desenvolver estratégias de alarme (gritar mais, exigir mais) para garantir resposta.

Adulto com esse modelo pode repetir padrão em relacionamentos novos: ou suprimindo necessidades (evitativo) ou hiperativando o sistema de apego (ansioso) — mesmo com parceiros que responderiam de forma diferente, porque o modelo filtra a percepção.


Relacionamentos e ativação de estilos

Estilos de apego não são completamente fixos — são mais ou menos ativos dependendo do contexto:

Pessoa com apego ansioso pode funcionar bem em domínio profissional (onde o sistema de apego não é ativado da mesma forma) e ter padrão ansioso apenas em relacionamentos íntimos.

Estresse, conflito, separação, e intimidade ativam o sistema de apego — e é quando os padrões aprendidos emergem com mais força.


"Earned security": segurança conquistada

Conceito crucial de Mary Main: não todas as pessoas com história de apego inseguro têm apego inseguro na vida adulta. Algumas desenvolvem "earned security" — apego seguro conquistado através de experiências relacionais posteriores e de elaboração reflexiva.

Fontes de segurança conquistada:

  • Relacionamentos com parceiro: parceiro seguro que responde de forma consistente ao longo do tempo pode gradualmente atualizar o modelo interno
  • Psicoterapia: especialmente abordagens que trabalham o apego diretamente (como terapia focada na emoção, ou psicoterapia psicodinâmica) — a relação terapêutica em si é experiência de apego que pode atualizar modelos
  • Elaboração narrativa: Mary Main desenvolveu a Adult Attachment Interview (AAI) — e encontrou que o que prediz apego seguro não é história de infância tranquila, mas capacidade de narrar a história de forma coerente e integrada, mesmo que essa história tenha sido difícil

Isso significa: passar por infância com apego inseguro não determina relacionamentos adultos. É ponto de partida, não destino.


Apego e psicoterapia

A relação terapêutica é, em si, experiência de apego. Terapeuta que é consistentemente responsivo, que tolera afeto intenso sem se afastar, que está presente na dor sem tentar eliminar a angústia prematuramente — oferece experiência corretiva que pode, ao longo do tempo, atualizar modelos internos.

John Bowlby descreveu terapeuta como "base segura" a partir da qual o paciente pode explorar memórias e emoções difíceis — e para a qual pode retornar quando a exploração produz angústia.

EFT (Terapia Focada na Emoção) para casais, desenvolvida por Sue Johnson, é explicitamente baseada em teoria do apego — trabalhando ciclos de apego no relacionamento e promovendo vínculos mais seguros.


Uma coisa sobre o que apego seguro não é

Apego seguro não é ausência de necessidade ou de vulnerabilidade. Não é não precisar de ninguém.

É exatamente o oposto: é poder precisar de alguém sem o medo de que a necessidade destruirá o relacionamento ou será ignorada. É poder ser vulnerável porque há base suficiente de confiança.

Pessoas que cresceram em ambientes seguros foram capazes de confiar porque receberam consistência suficiente. Pessoas que não tiveram esse ambiente podem construir essa base — mais tarde, mais lentamente, com mais esforço consciente — mas podem.

Apego seguro não é o estado natural de quem teve sorte. É capacidade que pode ser desenvolvida. Isso muda muito.

Dra. Jessica Jacomelli

Psiquiatra · Saúde mental da mulher

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