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Como ajudar alguém em crise de saúde mental: o que fazer e o que evitar

Quando alguém próximo está em crise — seja crise de pânico, episódio depressivo, pensamentos de suicídio, ou outro estado de sofrimento intenso — a maioria das pessoas não sabe o que fazer. E às vezes o que parece ajuda piora. O que realmente ajuda.

Alguém que você ama está passando por momento muito difícil — crise de pânico, pensamentos de se machucar, episódio depressivo intenso, dissociação. E você não sabe o que fazer.

Esse não-saber é normal. Não é ensinado.

Este texto é para quem quer ajudar — não para quem está em crise (se você está em crise, ligue CVV 188).


Princípio fundamental: presença antes de solução

O impulso natural de quem quer ajudar é encontrar solução. "Tem que pensar positivo." "Você precisa se distrair." "Vai passar, vai ver."

Esses comentários, mesmo bem-intencionados, frequentemente comunicam: "o que você está sentindo não é válido" ou "é simples, por que você não consegue?".

O que a maioria das pessoas em crise precisa primeiro: ser ouvida, sem julgamento, sem pressa para resolver.

A presença que simplesmente fica — sem tentar consertar — é frequentemente mais útil do que qualquer conselho.


Crise de pânico

Crise de pânico é experiência de terror físico e psicológico intenso — coração acelerado, falta de ar, tontura, sensação de morte iminente ou de perder o controle. É aterrorizante mesmo quem já sabe que vai passar.

O que ajuda:

  • Presença calma (seu sistema nervoso regulado tem efeito co-regulatório)
  • Voz calma, sem pressa, sem pânico
  • Ancoragem sensorial: "olha para mim. Me diz cinco coisas que você está vendo"
  • Guiar respiração com expiração mais longa: "inspira por 4, segura por 2, expira por 6"
  • Permanecer com a pessoa até a crise passar
  • Confirmar que ela está segura

O que não ajuda:

  • "Respira no papel" (o mito do saco de papel pode piorar hipercapnia)
  • "Para de exagerar, você está bem"
  • "Você vai ficar bem" dito no começo da crise (a pessoa não consegue processar)
  • Deixar a pessoa sozinha no pico da crise
  • Ficar ansioso ou alarmado (amplifica)

Episódio depressivo intenso

Quando alguém está em episódio depressivo severo — levantando da cama é difícil, nada parece ter sentido, o futuro parece sem saída.

O que ajuda:

  • "Estou aqui" — presença sem expectativa de que a pessoa responda
  • Ajuda prática e concreta: "posso trazer comida?", "quero fazer uma pequena coisa com você hoje — pode ser sair por 10 minutos"
  • Não sumir quando não obtém resposta positiva imediata
  • Validar o sofrimento sem concordar com as conclusões da depressão ("estou ouvindo que está parecendo sem saída — isso deve ser muito difícil")
  • Encorajar (sem pressionar) tratamento

O que não ajuda:

  • "Força de vontade" ou "vai se distrair"
  • "Você tem tanta coisa boa — pensa nas bênçãos"
  • "Precisando, me liga" (pessoa em depressão severa não vai ligar)
  • Sumir quando não melhora rápido
  • Expressar frustração com a pessoa por não melhorar

Quando há pensamentos de suicídio

Esta é a situação em que a maioria das pessoas mais teme errar — e onde boas práticas fazem diferença real.

Pergunte diretamente

Um dos mitos mais perigosos: "perguntar sobre suicídio planta a ideia." Pesquisa mostra o oposto. Perguntar diretamente ("você está tendo pensamentos de se machucar ou de não querer estar aqui?") alivia o isolamento, abre espaço, e é necessário para avaliar o risco.

Ouça sem minimizar ou alarmar

"Conte mais sobre esses pensamentos" — sem entrar em pânico, sem minimizar ("você não vai fazer isso"), sem prometer sigilo que não pode ser mantido.

Avalie o risco

  • Há pensamento passivo ("seria melhor não estar aqui") ou ativo ("estou pensando em fazer algo")?
  • Há plano específico?
  • A pessoa tem acesso a meios?

Quanto mais específico e com meios disponíveis, maior a urgência.

Não deixe sozinha em risco imediato

Se há risco imediato: fique junto, ligue SAMU 192, leve ao pronto-socorro psiquiátrico, ou ligue 192 (emergência).

Não prometa sigilo absoluto

"Vou guardar segredo" em situação de risco real te coloca em posição impossível. Seja honesta: "me importo com você e vou fazer o que for necessário para você ficar segura."


Quando a pessoa está dissociada

Dissociação — sensação de não estar presente, de estar "flutuando", de que as coisas não parecem reais — pode ser assustadora de observar.

O que ajuda:

  • Voz calma e constante: "você está aqui, você está segura, eu estou com você"
  • Contato sensorial com permissão: temperatura fria (gelo, água fria) ou pressão física (pressionar os pés no chão)
  • Orientação à realidade gentil: "é [dia da semana], você está em [lugar], você está segura"
  • Não pressionar para "voltar" rapidamente

O que não ajuda:

  • Movimentos bruscos ou voz alta
  • Pressão para que a pessoa explique o que está acontecendo durante o episódio
  • Ignorar e esperar passar sem nenhuma presença

O que você pode fazer por você mesmo

Acompanhar alguém em sofrimento intenso — especialmente de forma repetida — tem custo para quem ajuda. Fadiga de compaixão é real.

Você não pode ajudar efetivamente se você mesmo estiver esgotado. Cuidar-se não é abandono da pessoa que precisa de ajuda — é condição para que o cuidado seja possível.

Falar com alguém sobre o que está vivendo (profissional ou pessoa de confiança) é legítimo.


Recursos de crise no Brasil

  • CVV: 188 (ligação gratuita 24h, chat cvv.org.br)
  • SAMU: 192 (urgências)
  • CAPS: serviço de saúde mental público, equipes de crise em algumas cidades
  • UPA/UE: pronto-socorro para crises psiquiátricas agudas
  • CAPS-AD: específico para crise com substâncias

Uma coisa final

Você não precisa ter respostas para ajudar. Você precisa estar presente.

"Não sei o que dizer, mas estou aqui" é frequentemente mais útil do que qualquer conselho — porque comunica o que mais importa: você não está sozinha nisto.