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5 de outubro de 2023cuidados paliativossaúde mentalmorte

Cuidados paliativos e saúde mental: quando curar não é mais o objetivo

Cuidados paliativos — cuidado focado em qualidade de vida quando a doença não tem cura — dependem profundamente de suporte psicológico e psiquiátrico. Cicely Saunders (criadora da hospicagem moderna) e a 'dor total'. William Breitbart (Memorial Sloan Kettering) e dignidade, sentido, e terapia de dignidade. Ansiedade e depressão em doenças terminais: prevalência, diagnóstico diferencial, e tratamento. O sofrimento existencial vs. depressão tratável. O papel do psiquiatra em equipe paliativa. Como apoiar um familiar em cuidados paliativos.

"Minha mãe está em cuidados paliativos e ninguém fala sobre o que ela está sentindo por dentro." "Tenho câncer terminal — e meu oncologista cuida do corpo mas não sabe o que fazer com o que sinto." "Meu pai está morrendo e eu não sei como estar presente sem desmoronar." "Me disseram que 'cuidados paliativos' é desistir — mas não parece desistir."

Cuidados paliativos são frequentemente mal compreendidos — confundidos com desistência do tratamento, com "espera pela morte," ou com ausência de ação. A realidade é o oposto: são abordagem ativa, focada, e multidisciplinar de cuidado da qualidade de vida quando a cura deixou de ser o objetivo principal.

E dentro dessa abordagem, saúde mental — do paciente e da família — é componente central, não opcional.


O que são cuidados paliativos

A OMS define cuidados paliativos como "abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e famílias que enfrentam problemas associados a doença ameaçadora da vida, através da prevenção e alívio do sofrimento por meio de identificação precoce e avaliação e tratamento impecável de dor e outros problemas, físicos, psicossociais e espirituais."

Cicely Saunders, médica e assistente social britânica que fundou o movimento moderno de hospicagem com a abertura do St. Christopher's Hospice em Londres (1967), desenvolveu o conceito de "dor total" — reconhecendo que sofrimento em doenças terminais é simultaneamente físico, psicológico, social, e espiritual. Tratar apenas a dor física é tratar uma fração do sofrimento.

A OMS (2014) revisou a definição para incluir também "doenças não ameaçadoras da vida no curto prazo" que causam sofrimento significativo — expandindo cuidados paliativos para além de terminologia de "fase final."


Prevalência de ansiedade e depressão em cuidados paliativos

Ansiedade e depressão são extremamente prevalentes em pacientes com doença grave avançada — mas frequentemente subdiagnosticadas e sub-tratadas.

Pesquisa sistemática documenta:

Depressão: prevalência de 20-30% em pacientes com câncer avançado. O diagnóstico é complexificado porque muitos sintomas de depressão se sobrepõem com sintomas de doenças terminais (fadiga, perda de apetite, diminuição de interesse) — tornando necessário foco em sintomas mais específicos (humor deprimido persistente, desesperança, sentimento de inutilidade, ideação suicida).

Ansiedade: 20-40%, com formas específicas — ansiedade de morte, ansiedade sobre sofrimento futuro, ansiedade de abandono, ansiedade sobre o que vai acontecer com a família.

Sofrimento existencial: não é diagnóstico do DSM, mas é estado de angústia profunda sobre sentido, legado, finitude — documentado extensamente em pacientes em cuidados paliativos e frequentemente não acessível por abordagens farmacológicas.

O problema clínico: "tristeza normal diante da morte" vs. "depressão tratável" — distinção que tem consequências para tratamento. Uma pessoa que vai morrer em breve tem razões objetivas para tristeza. Isso não significa que depressão severa que limita qualidade de vida restante não deve ser tratada.


William Breitbart e a psico-oncologia

William Breitbart (Memorial Sloan Kettering Cancer Center, New York), pesquisador e clínico que molou a psiquiatria em cuidados paliativos, desenvolveu intervenções específicas para sofrimento psicológico e existencial em pacientes terminais.

Terapia de Dignidade (Dignity Therapy): intervenção estruturada de 3-4 sessões desenvolvida por Harvey Chochinov (University of Manitoba) e pesquisada por Breitbart e colaboradores. O terapeuta conduz entrevista sobre o que mais importou na vida da pessoa, o que quer que seja lembrado, o que quer dizer para quem deixa. A narrativa é editada e devolvida ao paciente — frequentemente como documento que fica com a família.

Chochinov et al. (2011, Lancet Oncology) publicaram ensaio randomizado documentando que Dignity Therapy reduziu sofrimento, angústia existencial, e aumentou sentido de propósito e dignidade — com impacto que persistiu na família após a morte do paciente.

Meaning-Centered Psychotherapy: desenvolvida por Breitbart (2012) com base em Viktor Frankl ("Em Busca de Sentido") — intervenção grupal ou individual de 7 sessões focada em ajudar pacientes a encontrar sentido apesar da doença terminal. Ensaios randomizados documentaram redução de angústia existencial e melhora de bem-estar espiritual.


A distinção entre sofrimento existencial e depressão

Uma das habilidades mais importantes em psiquiatria paliativa: distinguir sofrimento existencial normal de depressão tratável.

Sofrimento existencial normal: tristeza pela perda iminente de vida, de relacionamentos, de projetos; medo do desconhecido; luto pela perda de papel e de funcionamento. É resposta humana ao que está acontecendo — não é patologia.

Depressão clínica: humor persistentemente deprimido além do que é justificado pela situação, anedonia severa, desesperança absoluta, sentimento de inutilidade, ideação suicida — especialmente quando há resposta a tratamento (o que distingue de sofrimento "inevitável").

A dificuldade: no contexto terminal, frases como "não quero mais isso" ou "prefiro morrer" podem expressar desejos de morte que são resposta de sofrimento tratável ou podem ser expressão de autonomia e de dignidade sobre o próprio processo de morrer — que não é patologia.

Desejos de morte que são flutuantes e respondem a tratamento de depressão são diferentes de desejo de morte consistente, racional, e que persiste após alívio do sofrimento tratável. O psiquiatra em equipe paliativa tem papel de discriminar — e de tratar o que é tratável sem medicalizar o que é humano.


Tratamento psiquiátrico em cuidados paliativos

Farmacológico: antidepressivos em cuidados paliativos requerem escolha cuidadosa — em parte porque o tempo de resposta de ISRSs (2-4 semanas) pode ser longo demais em prognóstico de semanas. Metilfenidate em dose baixa tem início de ação mais rápido e evidência para depressão em pacientes terminais. Benzodiazepínicos para ansiedade aguda. Antipsicóticos em doses baixas para delirium — que é prevalente em fase final.

Psicoterapias: Terapia de Dignidade, Meaning-Centered Psychotherapy, e suporte psicoterápico individual têm evidência. O foco é diferente da psicoterapia convencional: não desenvolvimento de longo prazo, mas qualidade do tempo restante.

Atenção espiritual: Saunders já reconhecia que dimensão espiritual do sofrimento não é separável das outras. Capelania hospitalar, quando disponível, complementa suporte psicológico.


Como apoiar familiar em cuidados paliativos

Para a família de alguém em cuidados paliativos — incluindo aquelas que serão enlutadas — há orientações baseadas em pesquisa:

Presença, não palavras certas: a pesquisa de luto documentou que presença física importa mais do que o que se diz. "Não sei o que dizer mas estou aqui" é mais valioso do que tentativa de consolar com palavras que minimizam.

Perguntar o que a pessoa quer (quando capaz de responder): não presumir o que é melhor — "você quer que eu fique em silêncio?" "Quer que eu traga algo?" "O que seria mais útil agora?"

Cuidar do cuidador: família que cuida de paciente em fase final está em luto antecipatório e em exaustão simultâneos. Apoio ao cuidador — incluindo psicológico — é parte do cuidado paliativo pela OMS.

Não forçar positividade: "vai ficar bem" e "seja forte" são frases que comunicam que a tristeza do interlocutor é insuportável — e isolam a pessoa que precisa de espaço para sentir.


Uma coisa sobre qualidade do tempo restante

Cuidados paliativos partem de premissa que não é morbosa — é profundamente humana:

O tempo restante pode ser vivido com qualidade. Com presença. Com conexão. Com sentido.

Não é negação da morte. É recusa de que a morte seja o único foco do período que a precede.

A pesquisa de Ira Byock — médico americano especializado em cuidados paliativos — documentou que os temas mais significativos para pessoas no final da vida são consistentes: pedir perdão, perdoar, expressar gratidão, expressar amor, dizer adeus.

Nenhum desses requer cura. Todos requerem presença.

E a saúde mental — do paciente e de quem o acompanha — é o que torna essa presença possível.


Recursos no Brasil

ANCP (Academia Nacional de Cuidados Paliativos): referência para equipes e para famílias — ancp.org.br.

CAISS (Centros de Atenção Integral à Saúde) e serviços de cuidados paliativos hospitalares: em expansão no SUS, ainda com cobertura irregular.

CVV (188): para crise emocional de pacientes e familiares.

Serviços de psicologia oncológica: em hospitais do câncer (A.C. Camargo, INCA, entre outros) — suporte específico para pacientes e famílias.

Dra. Jessica Jacomelli

Psiquiatra · Saúde mental da mulher

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